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©1998-2013 Maria Helena Rowell


Citações
Dr.Sigmund Freud


 

12)"É impraticável, contudo, manter nosso sono livre dos estímulos; eles incidem na pessoa adormecida vindos de todos os lados - como os germes de vida de que se queixava Mefistófeles -, vindo de fora e de dentro,e até de partes do corpo que passam inteiramente despercebidas na vida de vigília. Assim, o sono é perturbado; primeiro uma parte da mente é abalada e despertada, e depois, outra; a mente funciona por um breve momento com sua parte desperta e, então, alegra-se em adormecer de novo. Os sonhos são uma reação à perturbação do sono provocada por estímulo - uma reação, aliás, bastante supérflua.

Mas a descrição do sonhar - que, afinal de contas, continua a ser uma função da mente - como um processo somático implica também outro sentido. Destina-se a demonstrar que os sonhos não merecem ser classificados como processos psíquicos. O sonhar tem sido muitas vezes comparado com "os dez dedos de um homem que nada sabe de música, deslocando-se ao acaso sobre as teclas de um piano" [Strümpell, 1877, 84; ver em [1], adiante]; e esse símile mostra, melhor do que qualquer outra coisa, o tipo de opinião que geralmente fazem do sonhar os representantes das ciências exatas. Sob esse prisma, o sonho é algo total e completamente impossível de interpretar, pois como poderiam os dez dedos de alguém que não soubesse música produzir uma peça musical?"

Trecho de "A Interpretação dos Sonhos" (1900) [ES, IV, p.82]




13)"Devem estar lembrados de que eu disse (ver a partir de [1]) que o indivíduo que devaneia oculta cuidadosamente suas fantasias dos demais, porque sente ter razões para se envergonhar das mesmas. Devo acrescentar agora que, mesmo que ele as comunicasse para nós, o relato não nos causaria prazer. Sentiríamos repulsa, ou permaneceríamos indiferentes ao tomar conhecimento de tais fantasias. Mas quando um escritor criativo nos apresenta suas peças, ou nos relata o que julgamos ser seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente originário da confluência de muitas fontes. Como o escritor o consegue constitui seu segredo mais íntimo. A verdadeira ars poetica está na técnica de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem dúvida ligado às barreiras que separam cada ego dos demais. Podemos perceber dois dos métodos empregados por essa técnica. O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Denominamos de prêmio de estímulo ou de prazer preliminar ao prazer desse gênero, que nos é oferecido para possibilitar a liberação de um prazer ainda maior, proveniente de fontes psíquicas mais profundas. Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes. Talvez até grande parte desse efeito seja devida à possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, nos deleitarmos com nossos próprios devaneios, sem auto-acusações ou vergonha."

Trecho de "Escritores Criativos e Devaneios" (1908 [1907]) [ES, IX, p.157-58]




14)"Mesmo quando me afastei da observação, evitei cuidadosamente qualquer contato com a filosofia propriamente dita. Essa evitação foi grandemente facilitada pela incapacidade constitucional. Sempre me mostrei receptivo às idéias de G. T. Fechner e segui esse pensador em muitos pontos importantes. O alto grau em que a psicanálise coincide com a filosofia de Schopenhauer - ele não somente afirma o domínio das emoções e a suprema importância da sexualidade, mas também estava até mesmo cônscio do mecanismo da repressão - não deve ser remetida à minha familiaridade com seus ensinamentos. Li Schopenhauer muito tarde em minha vida. Nietzsche, outro filósofo cujas conjecturas e intuições amiúde concordam, da forma mais surpreendente, com os laboriosos achados da psicanálise, por muito tempo foi evitado por mim, justamente por isso mesmo; eu estava menos preocupado com a questão da prioridade do que em manter minha mente desimpedida."

Trecho de "Um Estudo Autobiográfico (1925 [1924]) [ESB, XX, cap.V, 75-76]



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